quarta-feira, agosto 31, 2011

Unção das Flores


Com as flores que em teu corpo vou ungir
Com aromas, com fragrâncias e devaneio
Em minh’alma teus aromas, vou sentir
Com os versos de amor que tanto anseio

Vem com a graça, adornada e sedutora
Vem teu corpo, de belezas perfumadas
Vem com a graça da paixão fascinadora
Com as flores mais bonitas e almejadas

É um momento de amar e te rever
Com os hinos concebidos de amor
No esplendor da paixão agraciada...

Em teu corpo, o meu corpo aquecer
Com amores que meus olhos vão sentir
E no silêncio de uma noite ansiada...

segunda-feira, agosto 29, 2011

Apocalipse


Quem somos nós, neste tenebroso mar
A soluçar e a chorar, pela vida e por amor?
Centelhas, miríades de almas a fervilhar
Nutrindo com mais vidas nosso eu interior...

Almas tranqüilas, tumultuosas e várias
No murmurar uníssono de ecos perdidos
Vertendo lágrimas ansiosas hereditárias
Fazendo da terra, sepulcro de tantos gemidos!

O que faz essas almas, marcadas pelas ânsias
Cantar esta vida, na velhice, ou nas infâncias
Nas letras de um poema, nas trevas de um eclipse?

Porventura essas almas todas, e todas as almas eleitas
Hão de fecundar noutras plagas, sublimes perfeitas
Com vestes ensangüentadas, das páginas do Apocalipse?


*Imagem: Gustave Dore - Rosa Branca

sexta-feira, agosto 26, 2011

Augusto Poeta dos Anjos



As visões se sucedem no absconso da alma.
Carne despedaçada, sangue, feto sem vida,
Danadamente emerge na essência exausta,
No cerne doloroso, de uma pútrida ferida!

No cerne da minha dor, e minha fatalidade,
Minh’alma esvaiu-se numa visão alucinada.
Num sopro derradeiro tamanha debilidade,
Uniu-se ao pó da terra, e nela predestinada.

Tão logo o pranto, dos vencidos ao rosto cai,
Um gosto amargo, uma dor que não se esvai,
De plásmica substância que da alma insinua.

Foram-se os poemas da refinada eloquência,
Os mistérios e taumatúrgica transcendência,
Mas tornam da cova, para vida e à terra nua!


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Engenho Pau d'Arco, Paraíba, em 20 de abril de 1884  e faleceu em Leopoldina no dia 12 de novembro de 1914.
Foi um poeta brasileiro, identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano. Todavia, muitos críticos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois encontramos características nitidamente expressionistas em seus poemas.
É conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").

terça-feira, agosto 23, 2011

Flor Carnal


Teus seios são como os frutos doces celestes
Teu corpo adormecido de flor desencantada
Transita em desejos devassos pelos ciprestes
No puro amor carnal, deleites da musa amada

Teu corpo lânguido, no leito do teu abrigo
Como tantas belezas nascidas de uma flor
És formosura, celeste que a Deus bendigo
Com as oferendas, com beijos e com amor

Ah! Mas, trêmulo, medito nos teus encantos
E em tua flor, de mistério gozoso humano
Nestes devassos segredos dos teus quebrantos

Tua nívea florescência, virginal e consagrada
Aflora em meus desejos, notívago, mundano
O aroma dos teus odores de rosa desabrochada


quinta-feira, agosto 18, 2011

Menino


Quem és tu, menino tristonho e lacrimoso,
Que como a sombra de outrora nesta visão;
Aflora em meu coração, pueril e doloroso,
Com versos em prantos e uma doce ilusão?

Foram teus soluços, todos os teus prantos,
Nas noites de outrora em taciturno gemido;
Que geraram as flores, os poemas, encantos,
Em um coração dilacerado, soturno, ferido!

Fotografia envelhecida, que n'alma abrigo,
E um sonho dilacerado, sofredor e antigo,
Que escondo no coração silencioso, denso...

Descortina a noite de um céu flóreo, risonho,
No silêncio desta minha dor, e deste sonho,
Para ascender a um esquecido amor imenso....



segunda-feira, agosto 15, 2011

Em Teus Recintos


Quero, em teus recintos
Minha alma ascender...
Adentrar pelos teus sonhos
Dos amores e prazer...

Em teus braços descansar,
Ou quem sabe até morrer
No silêncio da penumbra
No amor do teu querer...

Só quero tua proteção...
Quero os anjos, teu calor!
Quero a paz e a comunhão
Sem temores, sem pudor!

Mas, quero ainda adentrar
Na luz dum amanhecer...
Sentir os teus perfumes
Nas belezas do teu ser...

Deus permita te encontrar
Neste canto do universo!
Conhecer os teus segredos
No amor em prosa e verso!


quinta-feira, agosto 11, 2011

Luar de Encantos

Com as pérolas brilhantes vais vestida
Vais ataviada em uma negritude veste
Alva, excelsa, pela luz embranquecida
Parece cintilar num alvor fulcro celeste

Toda plenitude do teu sonho adormecido
À noite surge num véu constelado, radiante
Na paz do esplendor singelo, bem definido
Nascido dum amor aflito, angélico, arfante

Mas então, em teus sonhos e na dormência
E com os perfumes das noites da inocência
Vejo-te como virgem dos anjos neste cortejo...

Neste instante tu surges como uma saudade
Nas essências das flores e de uma castidade
Ressuscitada nas essências de um doce beijo...


 

quinta-feira, agosto 04, 2011

Imortal Coração

Nesta pétrea imagem de extrema aflição
Isolada nos báratros de trágicos flagelos
Verti em meus sonhos o amor e a paixão
Tornei-te princesa, dos contos mais belos

A tua volta a poesia se abanca e chorosa
Com seus cantos tristes de soluços e dor
Vem como brisa suave, soturna e jocosa
Vem nos suspiros tristonhos de um amor

Nesta história dos meus sonhos lendários
Vou escrevendo nas portas dos santuários
Este poema de um bardo e sua doce ilusão

Com os soluços de lágrimas e tanta ternura
E com este amor que diviniza e transfigura
Sepulto meus sonhos em teu coração


 

terça-feira, agosto 02, 2011

Triunfante


Foi um dia, em que meu corpo dilacerado
Com a alma palpitante com os desalentos
Trazia tristezas dos ais de um amargurado
Trazia os soluços, as dores e os tormentos

Foram os suplícios nas dores que amarguei,
De palpitações e avassaladores sentimentos
Dos tormentos e das lágrimas que derramei,
Das ânsias nascidas dos meus sofrimentos!

Mas nos acordes das luzes angélicas, radiantes
Trago no coração as marcas de outrora; dantes
E as preces insondáveis de tu’alma a murmurar

Não é, no entanto, em final de morte horrenda
E tão atroz e derradeira; tão gélida e tremenda
Que na dor das despedidas o amor há de findar!