quinta-feira, janeiro 27, 2011

Columbário Medonho

Ó columbário misterioso, imponente, medonho, e antigo!
Acima de ti, jaz epitáfio esquecido desse chão memorial.
Depositário fiel dos materiais orgânicos, e tumbal abrigo,
Ó columbário faraônico, tão sombrio, tão tétrico e mortal.

Longe de mim, porém desse templo, dos que já findaram.
Afasta agora de mim Meu Deus e Pai! Da-me um atalho!
Lúgubre recinto, hoje os espíritos, que a terra habitaram...
Meus ossos, já estou ouvindo baterem, feito um chocalho!

Construção decrépita silencio reinante, místico sepulcral...
Traslada-me ó Deus, ainda vivo, desses sonhos temerários!
Sinto meus medos, meus terrores, meus temores e o mal,
Com os anjos desejaria brincar no teu céu feito os hilários...

Ó portal estranho da mística e eterna morada da escuridão
Atordoante conclusão final encerrando sonhos dos aflitos!
Ó portal medonho, funesto, cadeia que fechado esconde,
As lembranças da vida, do calor, das festas e dos conflitos...

Imagem: fachada do ossuário do cemitério do Araçá em São Paulo

A Árvore

O corte de uma árvore dentro de um condomínio, no bairro do Jaraguá,
Zona Norte de São Paulo, virou uma neurose na semana passada.
A polêmica se deu em virtude de a árvore ser grande e velha:
um jatobá de 13 metros de altura e aproximadamente 35 anos de idade.
Ela ficava dentro de um condomínio construído em seu entorno
e decretaram sua derrubada nesta sexta-feira. A construtora
tinha até a autorização assinada pela subprefeitura local.
“Foi autorizado o corte de um eucalipto e do jatobá”,
disse um funcionário da construtora.
Contrataram uma empresa para avaliar as condições da árvore.
Houve uma denuncia, e a polícia florestal esteve no local,
porém os papéis para o corte estavam em ordem.
Estavam todos preocupados!
- Ela é perigosa...
- Ela está num local impróprio...
- Ela pode amassar um carro se um galho cair...
- Tem um enxame de abelhas...
- Ela pode matar alguém...
- Cuidado com ela!
Por fim, começou a derrubada.
A árvore, já não seria mais o perigo para as pessoas.
Ela veio abaixo, e também seu mundo...


Toda vez que vejo uma árvore derrubada
Nos terrenos das construções
Penso na loucura dos homens
Na insanidade absurda
Que nasce nos corações

Penso na ganância
Que corrompe e solapa
Não se preocupando
Com o futuro da raça

Mas penso na própria árvore
Que indefesa contra o nefasto
É sacrificada e morta,
E trocada pelo aço

Por algumas somas de dinheiro
Para ser arrancada
E mais tarde transformada
Numa cruz e numa estaca

Crucificando e transformando
Toda terra num deserto
Sepultando a ESPERANÇA,
Desse ÉDEN que nos resta!

Mário de Sá Carneiro (1890 – 1916)


Nasceu em Lisboa, dia 19 de Maio de 1890, um de meus poetas prediletos.
Perdera a mãe aos dois anos de idade, e isso de certa forma o tornou um
tanto depressivo no decorrer de sua vida.
Em 1911 matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e,
no ano seguinte, transfere-se para Universidade de Paris para
dar continuidade ao curso de Direito, que não conseguiu concluir.
Ainda em 1912 publica a peça teatral “Amizade” e o volume de novelas “Princípio”.
Nessa época, começa a corresponder-se com Fernando Pessoa.
Nessas correspondências, já é refletido o sintoma dos seus problemas
emocionais e as idéias de morte e suicídio.
Mário de Sá Carneiro e sua obra estão mesclados com sua vida pessoal,
revelando toda uma insatisfação com o mundo, e uma constante busca pelo eu interior.
Isso causou uma série de conflitos ao ponto de escrever à Fernando Pessoa, seu amigo.
Sá Carneiro então, já demonstrava uma dose de extremo pessimismo
em relação à sua própria vida, ao ponto de se suicidar em 26 de Abril de 1916.
Tudo isso fora relatado em carta à Fernando Pessoa,
o que de fato ocorreu num quarto do hotel Nice em Paris.
Em sua homenagem, dedico esses versos:

Mário de Sá Carneiro – 1890-1916


Minha alma silenciosa vê tua fotografia...
Senti uma dor, tão estranha e piedosa,
De sentimentos ocultos que eu nutria;
Por tua vida de tormento, fatalista ansiosa...

Em teu rosto sereno, delineado em tristeza,
Minh’alma se derrama daquilo que sentia
E tanta compaixão por ti, de uma pureza,
Ao me envolver em doce e sutil melancolia...

Dar-lhe-ia beijos em teu rosto, de amor angélico
Com o mais profundo amor de um irmão,
Com sentimentos embalados por singela poesia...

Mas tua presença, em meu coração me basta
Que na tua ausência, do poema leio, pressinto
E uma saudade, que me prende e me arrasta...