quinta-feira, fevereiro 03, 2011

A Inspiração

De onde vem a misteriosa inspiração?
De um mundo de centelha luminosa,
Com cantigas memoráveis de paixão
Ou na virtude consagrada e amorosa?

-Aparece do sonho amoroso delirante!
Com requintes de beleza e da calma;
Dos lampejos do clarão esfuziante,
No silêncio sacrossanto duma alma...

Ou no êxtase do amor ou da razão
Que renascem na jornada dum caminho
Como luz, como um cântico sereno...

Da alegria, de uma dor, ou uma afeição
Ou então ressurge em prantos
Que nos versos, faz nascer uma ilusão...

O texto acima escrevi inspirado na “A Idéia” do grande poeta, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, ícone da literatura brasileira. Nascido no Engenho Pau d’Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, e segundo pessoas da época, era tido como uma pessoa doentia e nervosa. Seus pais eram donos de engenhos, e assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho “A Poesia Científica”, do professor Martins Junior.
Seu único livro, “Eu”, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do “Eu” — desde 1919 constantemente reeditado como “Eu e outras poesias” — um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

Adeus no Entardecer



Quantas felicidades, com tu nesta vida...
Do amor mais sublime e um lindo querer!
Da vida amarga tornada tão linda,
Sonhada em minh’alma e um lindo viver...

Sonhada com o amor tão singelo glorioso,
Sonhada com estrelas ao céu envolver...
Eras tu, em meu sonho singelo e formoso,
Eras tu uma glória, que sempre quis ter...

Sensações dolorosas de uma vida acabando...
Sensações de uma vida sem graça ficar,
Sensações sepulcrais de uma vida expirando...
Descendo ao um leito na terra findar...

Há prelúdios, e há carinhos imensos,
Melancolias, perfumes, ermos lendários...
Há no entardecer, os brilhos intensos,
Há versos nostálgicos, pueris, solidários...