sexta-feira, agosto 26, 2011

Augusto Poeta dos Anjos



As visões se sucedem no absconso da alma.
Carne despedaçada, sangue, feto sem vida,
Danadamente emerge na essência exausta,
No cerne doloroso, de uma pútrida ferida!

No cerne da minha dor, e minha fatalidade,
Minh’alma esvaiu-se numa visão alucinada.
Num sopro derradeiro tamanha debilidade,
Uniu-se ao pó da terra, e nela predestinada.

Tão logo o pranto, dos vencidos ao rosto cai,
Um gosto amargo, uma dor que não se esvai,
De plásmica substância que da alma insinua.

Foram-se os poemas da refinada eloquência,
Os mistérios e taumatúrgica transcendência,
Mas tornam da cova, para vida e à terra nua!


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Engenho Pau d'Arco, Paraíba, em 20 de abril de 1884  e faleceu em Leopoldina no dia 12 de novembro de 1914.
Foi um poeta brasileiro, identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano. Todavia, muitos críticos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois encontramos características nitidamente expressionistas em seus poemas.
É conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").